Por Laís Ribeiro, mestranda em Comunicação – Universidad de Málaga

 

Antes de compartilhar minhas impressões sobre o programa Roda Viva de segunda-feira, preciso dizer que assisti Bruno Torturra e Pablo Capilé apenas ontem, 06/08, via YouTube. Esse pequeno detalhe já mostra o quanto o nosso comportamento como audiência vem se transformando ao longo dos anos, simultaneamente ao avanço da tecnologia.

 

Para começar, explico o título desse post. Fiquei muito incomodada ao sentir que estava perdendo dois blocos do prorama com esses jovens brilhantes por causa de perguntas como:

“Mas afinal como vocês vivem…vocês têm salário?”

“Como o Mídia Ninja sustenta as transmissões? Mas e o modelo de negócio?”

“Vocês receberiam patrocínio de marcas?”

“Vocês receberam dinheiro de um edital da Petrobrás? E do Governo de São Paulo?”

“Como vocês falam mal do governador Alckmin e recebem dinheiro de editais do governo? Isso é possível?”

“O quê? Vocês tem 200 coletivos? 2000 pessoas trabalhando? Mas como elas recebem?”

 

Sim, foram dois blocos para explicar que não é o dinheiro o X da questão, que os coletivos do Fora do Eixo são independentes ainda que trabalhem em rede, que os jornalistas não se sentem sem liberdade em falar o que pensam pelo simples fato de ter recebido dinheiro de editais públicos.

Essas perguntas e a própria incompreensão das respostas dadas por Bruno e Pablo mostram que a maioria dos jornalistas e profissionais que estavam presentes no Roda Viva são, na verdade, dinossauros. Eles não entendem o mundo digital e, por isso, querem respostas para a lógica de transmissão de informações do período industrial. Não por acaso estão fechando revistas e jornais: essas pessoas estão trabalhando e gerenciando canais enormes que não souberam migrar suas operações para o mundo web.

Assista!

 

Com quase 1 hora e meia de entrevista, é impossível apontar tudo de importante que foi falado, então resolvi trazer 3 coisas que considero mais importantes:

 

MERCADO MUSICAL E MERCADO JORNALÍSTICO

Pablo afirma que o que aconteceu com a música, com a parada nas vendas de CDs e a necessidade desenvolver novos negócios, pode ser considerada a primeira crise de intermediários já que a Internet acabou distribuindo a matéria prima dessas indústrias. Sem o filtro das gravadoras e da Indústria Cultural, pequenos festivais e selos independentes começaram a ter espaço. E boa parte dos artistas que hoje estão surgindo no Brasil vieram desse novo cenário.

A informação, matéria prima dos veículos de comunicação, também começa a ser democratizada a partir do momento em que surgem coletivos como a Mídia Ninja e que cada pessoa é uma mídia em potencial com um smartphone e acesso à Internet. Ou seja, o modelo de transmissão de informação por jornais, revistas e a própria televisão está falindo. Cada internauta pode agora ser concorrente de uma Rede Globo. Isso não quer dizer que esses meios vão acabar, mas sim, dinossauros: eles vão ter que se adaptar com esses novos concorrentes que… somos nós! O em potencial grifado aí em cima tem a ver com o exagero da frase ‘todos somos mídia’. Para entender melhor leia  esse artigo. 

 

O VELHO MANIQUEÍSMO: PT x PSDB/BOMxMAU/VÂNDALOSxPACÍFICOS

Quando enfim os dinossauros entenderam o “modelo de negócio” da Mídia Ninja, afinal chegou-se no tema das manifestações de junho, nas quais a Mídia Ninja se fortaleceu e ganhou audiência.

Suzana Singer, da Folha de São Paulo, e o próprio apresentador do programa insistiram em perguntas como:

Mas vocês são a favor ou contra o Black Bloc? Você é a favor do vandalismo?

Mas vocês são petistas? São Marina? Por que você não dialoga com o PSDB?

Vocês acham que é impossível fazer jornalismo imparcial?

Ficou visível a necessidade desses jurássicos em encaixotar opiniões, pessoas, grupos. Não é de se admirar, afinal, é o que eles fazem no dia-a-dia em cada reportagem. Se você não gosta do PSDB você só pode ser PT. Se você acha que a atuação do Black Bloc é complexa e deve ser analisada com calma então você é a favor do vandalismo. Os velhos dinossauros ainda não aprenderam que nós – jovens – somos múltiplos, temos muitas bandeiras, assim como o movimento que aconteceu  em junho no Brasil. “O que está acontecendo na verdade é mais uma guerra de memes, de imaginários do que uma guerra ideológica entre direita e esquerda” disse Bruno.

Para entender melhor toda essa multiplicidade, indico o vídeo:

All work and all play (legendado) from Box1824 on Vimeo.

 

REMIX DE NARRATIVAS

Wilson Moherdaui, o interessado em modelos de negócio, indagou “Vocês colocam tudo no ar cru, sem edição, colocam o material bruto… Vocês não têm medo que um recorte do que vocês disponibilizaram seja mal utilizado?”

“Na lógica da multidão você está suscetível a esse remix e às recombinações o tempo inteiro. Antes a gente tinha mídia de massa, agora a gente tem massa e mídia”, disse Pablo. Como foi no finalzinho não deu para aprofundar, mas está aí uma discussão muito séria que tem a ver com a Lei de copyright e com os direitos de autor, que tanto se fala atualmente.

Enquanto a mídia tradicional está com medo que seus produtos sejam reapropriados, o pessoal do Mídia Ninja quer mais é perder o controle porque vê que o remix de narrativas é positivo em todos os sentidos para a sociedade.

Para aprofundar o debate sobre a sociedade ‘Remix’  assista: